LOUD!


Todas as bandas, os fanzines e as pessoas que provaram que é possível fazer cultura à margem da indústria cultural se encontram aqui. Seja na literatura, na música ou nas atitudes, o lema é um só: faça você mesmo. Herdado do movimento punk de 1977 na Inglaterra, o slogan Do It Yourself estimulou jovens a meteram as mãos às tintas, jornais, recortes e muita cola e xerox de 3 centavos para expressar o que sentiam. E dessa vontade de liberdade pessoas fizeram (e fazem) fanzines. Aperte os cintos e libere-se de todo preconceito para viajar por esta linguagem isenta de compromissos, responsável pela renovação artística-cultural dos últimos vinte anos.

Os fanzines sempre estiveram presentes no Circo Voador. Lá milhares de cópias de pensamentos, manifestações, quadrinhos e informativos encontraram um espaço que coincidia com a filosofia dessas publicações marginais. Por ser um palco que sempre esteve aberto à transgressão, ao “estrangeiro” (no sentido mais antropológico do termo), é natural que as pessoas que produzem fanzines estivessem sempre circulando por lá.

E quem são essas pessoas? Poetas, músicos, skatistas, desenhistas, gente sensível, gente radical. Não existe um perfil exato do zineiro. Como também não existem registros exatos da primeira banca de fanzine no Circo Voador.
 
Pode-se dizer que as fitas-demo, material indispensável para qualquer banda que queira mostrar seu trabalho, seja um fanzine musical? Pode parecer uma adequação um tanto forçada de dois conceitos distintos, mas analisemos: uma banda não é um grupo de pessoas em torno de uma idéia? E a fita-demo não seria a expressão crua dessa idéia?
O importante é que essa proximidade de valores até hoje rende ótimos frutos.

Já vai longe a idéia de que o fanzine seja apenas um meio pelo qual um  fã-clube pode divulgar o trabalho de seu ídolo preferido; uma simples contração de fã e magazine. Esse conceito já extrapolou e abriu espaço para que uma geração de críticos, produtores, jornalistas e músicos soltassem o verbo impresso em publicações que tem a música como tema, independentes da indústria, ritmos ou modismos. O grande número de publicações nesse estilo nos mostra isso. E em todas elas as demos estão lá. Os fanzines tornaram-se um meio ideal para o qual bandas iniciantes podem mandar suas gravações e ter a certeza de que vão ouvir e falar do seu trabalho.

No Circo Voador era grande o número de demos que chegava todo mês. Nem todas as bandas conseguiam tocar no palco da lona. Mas a política sempre foi de abrir espaço para quem está começando. Seja em festivais específicos, como o SuperDemo, ou abrindo shows de nomes consagrados, várias bandas iniciantes se lançaram para o mainstream sob os Arcos da Lapa. Muitos não conseguiram o reconhecimento de crítica e público tão desejado. Mas todos têm guardado na memória a emoção de tocar no Circo Voador.

Quando os fanzines começaram a ganhar força no Brasil, na década de 80, muita gente achou que era o renascimento dos impressos alternativos surgidos nos anos 60/70 com os hippies. Acontece que punks e hippies tem visões muito diferentes do mundo. Se pensarmos em quantos não se encaixam no estereótipo criado para cada um, então, mais ainda. Mas ambos (ou todos) concordam no óbvio: o verbo, falado ou escrito, tem força. Esse verbo era FAZER. Só que não mais paz e amor. Era a guerra urbana, a cidade sitiada, as paredes pichadas. O imaginário punk encontrou uma ressonância distorcida e jogou no papel. Escarros de tinta nanquim com a podridão das cópias feitas em máquina de toner líquido geraram zines. E por que não fazê-los? Se os avanços tecnológicos nos permitem, o custo de produção é razoável, queremos escrever, pode ser que alguém queira ler, então por que não fazê-lo?

O mesmo vale para o palco: o Circo estava montado, o Perfeito Fortuna ou a Maria Juçá apresentavam os shows, milhares de bandas, grupos, trios, solos, orquestras, performáticos, bailarinos tinham o que falar, por que deixar de voar? Durante 15 anos as atrações se revezaram, com algumas interrupções políticas e financeiras no percurso, mas sempre com uma proposta em relação às bandas bem parecida com a que um fanzineiro tem na hora em que está montando seu zine. A vontade de tornar público uma informação essencial, uma coisa que não pode ficar escondida para sempre, mesmo que alguns não queiram ver. E isso não é nada menos do que querer nos mostrar. Mostrar nós mesmos, fora dos padrões globalizados, com todas as pelancas e tal.


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