LOUD!


Tudo começou no Arpoador, no quente verão de 1982, depois de uma estrondosa ocupação de Baby e Pepeu no evento "O Sol tá Solto", da Rádio Cidade. Aquela praia sinalizava a sua irresistível vocação de ditar moda.

As cabeças da vanguarda estavam antenadas. O Rio tranpirava os horrores da longa ditadura. A cultura fervia nos porões dos edifícios, nos barracões do subúrbio, no submundo. Todos tinham muitas idéias na cabeça. Desse grande caldeirão surgiu o Circo Voador, ancorado por um forte movimento teatral, capitaneado pelo Asdrúbal Trouxe o Trombone e nomes como Chacal, Breno Moroni, Nélson Motta e tantos outros.

O Circo Voador abrigou todos os movimentos artísticos experimentais e foi o principal acontecimento desse e muitos outros verões. Ficaram a frente neste breve verão Márcio Calvão, Maurício Sette e perfeito Fortuna como administradores. O movimento continuou cada vez mais envolvente. Alice de Andrade foi o canal entre o Circo Voador e a mídia. Conseguiu que o Jornal do Brasil e a Rádio Cidade oficialmente promovecem o Circo. Estava adotado pelos cariocas e imprimiu um novo conceito de produção cultural. Mas tinha data para acabar...

Acolhido pela primeira dama do estado Zoé Chagas Freitas, conseguiu que o prefeito Júlio Coutinho cedesse a área para o primeiro pouso do Circo Voador, no Arpoador, além de um patrocínio semanal. Mas depois de dois meses não teve jeito. A prefeitura passou o rapa e levou toda a tralha do Circo para um depósito. Mais uma vez foi a super Dona Zoé Chagas Freitas, a essa altura já eleita madrinha do Circo Voador, quem interviu a favor da trupe.

O pouso seguinte foi definitivo. Lançado sob os Arcos da Lapa numa Surpreendamental Parada Voadora, aterrisava o Circo Voador e ali ficaria para sempre, eventualmente lançando suas missões exploratórias para outras terras [Cabo Frio, Maranhão, Recife e México]. Ali, no meio da galera que tocava o Circo Voador tinha uma moça que parecia a mais louca de todas. Era a Maria Juçá, que cismou de levar o rock para o Circo. E começou o projeto mais vitorioso que já pintou naquela lona: o Rock Voador.

Foram três anos de shows todos os sábados que revelaram para o Brasil toda uma geração de bandas que fizeram a história do rock/pop brasileiro na década de 80. Juçá fez um trabalho de formiguinha e o resultado foi um estouro de manada. Ela visitava as gravadoras, enchia os sacos dos programadores de rádio e não é exagero dizer que foi ela a responsável pela grande virada que o rock brasileiro conseguiu nas rádios brasileiras. Foram três anos consecutivos de Rock Voador, mas mesmo com o fim do projeto a semente já estava plantada.

O Circo Voador virou plataforma de lançamento para os artistas brasileiros desapadrinhados e desamparados, que conseguiram seu espaço na base de muito trabalho e talento. Foi assim com a geração dos anos 90 que acabou ficando sem espaço no meio do caminho. Produtores malucos como Alexandre Rolinha Rossi e Diogo Tirado abriram o palco para grupos como Raimundos, Chico Science e Planet Hemp, entre tantos outros. Quem decolou se deu bem, porque muita gente boa ficou a mercê de um mercado cultural asfixiante e viciado, que em nada lembra o arejamento cultural do Circo Voador.

Um trabalho apaixonado, verdadeiro, que rendeu frutos e está pronto para continuar a florescer. Um projeto cultural único em nossa cidade, democratizante, feliz, tocado muito mais pelo amor a cultura do que pela avidez financeira.


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